Trans e rainha de escola de samba, Barbara Sheldon brilha no Carnaval carioca

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Dona de um estabelecimento de compra e venda de cabelos, ela também reina no ramo profissional.

A foto é do fotógrafo trans Kaique Theodoro, com edição de imagem de Lucas Ribeiro

Ela é trans, ela é negra, ela é linda. Barbara Sheldon vive nesta terça-feira de Carnaval um dia de sonho ao desfilar como rainha de uma escola de samba. Ela ocupa o posto na União do Parque Curicica, última escola do Grupo B a pisar na passarela da Intendente Magalhães, na Zona Norte do Rio, local dos desfiles dos grupos de acesso.

 

Barbara defende com orgulho a bandeira da escola da Zona Oeste da cidade. “ Foi a primeira a acreditar de verdade em mim. A primeira a acreditar que eu me tornaria uma personalidade do Carnaval. Hoje, a Parque Curicica é minha escola do coração”, definiu a rainha. Ela ainda volta a botar o samba pra jogo no Império de Gramacho, em Duque de Caxias.

 

A trajetória no Carnaval começou no Império Serrano, agremiação que admira desde a infância, porém, os altos preços das fantasias a impediram de continuar defendendo a verde e branca de Madureira. “A fantasia de musa de uma escola custa mais de dez mil reais. É um valor alto demais por apenas 45 minutos, mas não nego que eu tenho o sonho de um dia voltar”, contou. “A obsessão pelo dinheiro acaba tirando o espaço de quem ama a escola, de quem tem samba no pé. Aí, quem recebe destaque é aquela pessoa que caiu de paraquedas e não entende nada de Carnaval”, completou.

 

Dona de uma loja de compra e venda de cabelos em Madureira, na zona norte do Rio, ela enfrentou a barreira do mercado de trabalho, uma realidade comum para pessoas trans, e acabou empurrada para a prostituição. “Minha família não me apoiou quando eu assumi a minha transexualidade e comecei o processo de transição do meu corpo. Diziam que eu tinha que me virar para conseguir ser a Barbara. O tratamento hormonal é muito caro e a prostituição foi o único caminho possível. Mas eu sempre tive a certeza que não era para mim”.

 

O momento de virada profissional aconteceu quando teve a oportunidade de trabalho como secretária no escritório do desembargador Siro Darlan. “Tudo que eu absorvi lá eu levo para o restante da minha vida”. Com a bagagem profissional, Barbara decidiu se arriscar no ramo de cabelos orgânicos e sintéticos. "É um universo que sempre me interessou".

 

Ela é uma grande garota-propaganda de seu próprio negócio, já que volta e meia, quando quer se sentir diferente, molda o rosto com um cabelo diferente, como o que aparece na foto que ilustra esta reportagem. Ela tem tido experiências profissionais em outros estados e fora do Brasil. O sucesso trouxe o respeito das pessoas e àqueles que um dia a desprezaram, ela afirma, hoje pedem apoio. “Esse ano eu vou à Alemanha em uma feira de cabelos aprender mais sobre esse mercado de trabalho. Foi uma batalha difícil, mas eu consegui vencer as barreiras. Muitas das pessoas que tentaram me esculachar. me pedem ajuda, me pedem emprego. Hoje eu sou a Babara, fiz o meu nome”.