Moradores de favelas criticam novo clipe de Anitta, 'Vai Malandra'

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Lançado nesta segunda-feira depois de muito suspense, o novo clipe de Anitta vem gerando discussões acaloradas nas ruas e nas redes sociais pela forma como a favela é retratada. A reportagem de Rio Gay Life encontrou críticas positivas e negativas ao vídeo. Há quem tenha se divertido, há quem tenha achado um absurdo. Dirigido pelo fotógrafo americano Terry Richardson e com a participação de moradores do Vidigal na produção, 'Vai Malandra' mostra a cantora sensualizando em um dia na comunidade. O clipe ultrapassou a impressionante marca de 13 milhões de visualizações, mas, curiosamente não gerou grande comoção nas páginas dedicadas ao morro da Zona Sul. Foram raros os comentários e a maioria negativos.

 

Moradora da Rocinha, comunidade vizinha ao Vidigal, a estudante de Direito Marcela Leite criticou negativamente o clipe. "Adoro a Anitta, mas o clipe é horroroso. A única coisa que achei legal foi ela ter assumido as celulites. Mas fiquei chocada com a cena que tira de contexto o banho de sol na laje, com as mulheres de salto, como se estivessem à disposição para o sexo. Mais uma vez um clipe que presta o desserviço de tratar a favela como lugar exótico. E o mais triste é que a Anitta conhece favela, ela sabe que a realidade não é essa. Mas fez assim mesmo, com o objetivo de estourar em views no Youtube. E o pior é que conseguiu", disse. 

 

A estudante de psicologia Flávia Gonçalves, moradora do Chapéu-Mangueira, tem opinião diferente. "Eu amei. A Anitta fez um recorte de uma faceta da favela que existe. A festa. Todo mundo que conhece favela sabe que as festas são quase intermináveis, duram, às vezes, quase 24 horas", argumentou a universitária.  "Falaram mal da sexualização no clipe. Quando a Anitta fez o clipe em Nova York, rebolando no metrô, no supermercado, alguém achou que vai poder chegar lá e fazer o mesmo?  A mesma coisa é o clipe no Vidigal. Ninguém vai ver uma garota dançando em cima de uma mesa de sinuca, nem de salto tomando sol na laje. Se acham isso, o problema não está no clipe, está com a pessoa que acha isso e não sabe interpretar licença poética", completou,

 

Funk paulista em favela carioca faz sentido?


Opinião semelhante tem a assistente administrativa Fernanda Oliveira, do Antares, comunidade da Zona Oeste do RIo. " A Anitta pegou foi leve nesse clipe. Quem já foi à baile de favela sabe as coisas que acontecem. Coisas muito mais fortes que

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Em página do Facebook sobre o Vidigal, local da gravação do clipe, a repercussão foi pequena. Comentários foram, em maioria, negativos. 

o clipe mostrou. Teve uma coisa ou outra ali que eu não gostei. Achei a cena das meninas na laje de salto uma besteira. Ninguém toma sol na laje de salto. E o cara de sunga e tênis.... coisa mais ridícula. Mas o clipe é muito maneiro. Anitta dançando muito como sempre. Só não é o tipo de funk que eu curto. Acho funk paulista muito ruim".

 

O uso do funk paulista como som de uma favela carioca ('Não toca Tropkillaz na favela") também foi criticado negativamente pelo ativista Hugo Gomes, morador da Maré. " A Anitta veio da favela. Mas como a Tati Quebra-Barraco falou, há muitas que usam o funk como porta de entrada para o mundo da música e depois fogem para o pop. Parece que a Anitta só fez esse clipe por questão de marketing, até porque o ritmo dessa música me parece muito mais próprio da periferia de São Paulo do que os funks cariocas. Não toca Tropkillaz na favela. Mas eu sou muito desesperançoso. Não acredito na mídia. Nem Lady Gaga ou Beyoncé fazem algo senão por marketing".

 

"Homenagem respeitosa"

 

Criado em comunidade da Baixada Fluminense, o diretor de video e youtuber João Victor Pessanha morou no Vidigal por três anos. Para ele, Anitta trouxe uma visão próxima do que é a realidade na favela carioca. "O meu olhar sob o Vidigal pode ser o de um 'estrangeiro', porque eu não fui criado lá. Tudo que ela mostrou no clipe não tem uma vírgula do que não acontece lá. São as mulheres passando descolorante, tomando sol na laje com fita isolante, isso quando não é topless. A favela não é só aquilo, mas qualquer clipe de música pop vai focar a festa em um lugar. Ela poderia ter mostrado uma festa em um condomínio ou dentro de estúdio", ressaltou. João não deixou de ponderar contra a afroconveniência da artista carioca. "Para mostrar que é preta, favelada, bota o cabelo com trança, mas quando quer mostrar que é fina, alisa o cabelo. Isso eu não gosto. Só que eu acho que a Anitta tem o direito de retratar a favela porque ela veio da favela. Grande parte da equipe que trabalhou no clipe é do núcleo de cinema do Vidigal. Ela tentou o máximo que pôde integrar as pessoas. Foi uma homenagem respeitosa. Na medida do possível ".  

 

O técnico de informática Roberto Oliveira, criado no Juramento, no entanto,  ficou com "vergonha alheia" do clipe da Anitta. "Para mim tem duas cenas que resumem a proposta do clipe. Uma é quando a câmera mostra o corpo do cara negro de baixo para cima e para no pescoço, sem mostrar o rosto. A outra é quando mostra as mulheres de salto alto tomando banho de sol de biquini. O nome disso é objetificação. O corpo negro sem rosto. Só como objeto de desejo. Você já viu um cara branco ser tratado desse jeito em clipe? E todo mundo sabe o que se quer passar sobre a imagem da mulher quando a coloca de salto alto e seminua. A indústria pornô repete esse estereótipo o tempo todo. Anitta reduziu a favela a isso. É vergonha alheia total". 

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Salto alto e biquíni: Moradores criticaram a sexualização da imagem da mulher favelada no clipe de Vai, Malandra

Se Snoop Dogg pode, por que Anitta não pode?

 

A ativista do Complexo do Alemão Marcela Lisboa elogiou Anitta ("é um fenômeno como businesswoman internacional"), mas criticou a afroconveniência presente no clipe de "Vai, Malandra". "Eu achei o clipe problemático nessa tentativa de, no funk, querer se colocar como negra. Já que os movimentos sociais negros têm ascendido, a branquitude tem se incomodado muito com o título de ser branca. Em vez de assumir o privilégio da branquitude e reconhecer o racismo, prefere ignorar a ideia de eles mesmos serem brancos. Achei que, para uma favela, o ambiente tinha poucas pessoas pretas na cena da laje". Marcela, contudo, ponderou a respeito da carga sexual do clipe. Ela entende que a análise não pode resvalar em machismo, já que homens negros usam o sexo em seus clipes e não são criticados por isso. "Snoop Dogg e outros cantores do mesmo gênero musical vêm aqui, gravam clipes em favelas com mulheres sensuais e sexualizadas e não recebem a crítica que a Anitta recebe. Eu entendo que isso vem também do machismo".

 

Fã da Anitta declarado, o auxiliar de serviços gerais Rodrigo Pires, morador da Vila Cruzeiro, não concorda em nada com qualquer crítica à cantora. "Essa gente desocupada vem dar close errado justo com a Anitta. Vão olhar o que ella já fez pela carreira do Nego do Borel, como o nome dele já diz, um cantor negro. Vão olhar o que ela já fez pela carreira da Pabllo Vittar, uma drag queen. Vão olhar o que ela está fazendo pelo Mikael, outro cantor negro. Se ela quisesse, com o dinheiro que ela tem, botava a grana toda dela em uma dupla sertaneja e entupia a raba de dinheiro. Mas tá investindo em gente como ela que veio de baixo. Anitta é foda!", resumiu.