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Rio Gay Life inicia, nesta terça-feira, a série de ensaios Liberdade de Ser. Em fotos e aspas, as histórias que o corpo conta, expressa, sente, deseja.

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"A heteronormatividade não me interessa. Minha luta é para para não reproduzir discursos e padrões heteronormativos. A minha fotografia é a de um brucutu. Sei que não passo por dores só sentidas por pessoas mais delicadas.  Eu conheci Jorge Lafond, um intelectual, um mestre do teatro. Na minha época, o nome dele era usado como xingamento. Hoje, ele é idolatrado pela garotada. Essa ressignificação é do caralho". 

"O movimento LGBT não me contempla. É classista, racista, misógino. Não é T. Ao estudar cada vez mais a História da África, eu percebo como essa coisa binária de tentar rotular é eurocêntrica. Oxum e Iansã se pegavam e foda-se, não tinha culpa. Não tinha nome."

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"Eu cresci numa familia sem tabus com o corpo.  A minha avó ficava nua em casa. Meus pais andavam pelados em casa. Meu pai fez uma cirurgia para o tratamento de um câncer no intestino e ficou com uma cicatriz. O médico sugeriu fazer uma nova cirurgia e ele respondeu: Deixa a minha marca, é a minha vida. Estou vivo".

 

 

"Eu acho um saco essa coisa de roupa. Uso porque tem que usar"

 

"Eu me aceito bem. Se eu tiver que chegar num coquetel, esse coquetel é para mim, não é para os outros".

 

 

 

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"Se não for para contribuir para o processo artístico, a nudez é gratuita e desnecessária". 

"A nudez dentro do processo artístico tem que ser conversada, nunca imposta". "O ator conta história". 

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"Meu pai e minha mãe sempre me chamaram de intelectual de uma forma carinhosa. Isso se reverteu de uma maneira positiva, para eu não cair no estereótipo do negão, da hipersexualização". 

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"Eu sempre tive consciência do meu privilégio econômico e acadêmico. Muita gente melhor do que eu ficou lá atrás há 27 anos. O que me faz hoje conseguir impulsionar a minha própria narrativa, o meu próprio trabalho, é o que a gente, preto, sabe fazer de melhor e, cada vez que a gente vai se embranquecendo, vai esquecendo: que é trabalhar em rede. Eu não trabalho sozinho. Eu apareço porque eu estou como diretor, numa estrutura burguesa que ainda precisamos seguir. Mas eu não trabalho sozinho. A minha forma de trabalhar é em círculo. Eu sou da contribuição coletiva. Eu sempre acredito que a gente pode fazer mudanças por meio da micropolítica. No meu trabalho vai ter sim mulher preta, trans ou cis. 

 

"Sozinho, a gente não consegue nada. Sozinho, a estrutura te engole".

 

 

"Eu tenho uma ficha técnica 'milionária' de gente que o mercado entende que está à margem". 

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"A gente vive um boom econômico também muito do resultado de 15 anos de políticas afirmativas. Houve muito trabalho para que a gente chegasse ao momento cultural atual: o Teatro Experimental do Negro, do Abdias do Nascimento, o trabalho de Léa Garcia, de Antônio Pompêo, de Ruth de Souza, mas não havia esse boom econômico que permitia a grande ocupação do teatro pelo público. Hoje, por mais que a gente esteja junto com a branquitude, quem determina como fazer e onde fazer é a gente produtor, é a gente artista preto. A gente pode estar junto, mas não de uma maneira subalterna. Por mais que a gente esteja numa crise econômica em que os mais prejucados são as mulheres e homens da população negra, a gente vai continuar resistindo, produzindo. A periferia é um exemplo:  sempre fez,  continua fazendo arte e o público comparece. Agora não tem volta, a gente pegou o gostinho". 

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"Economicamente nós estamos fortalecidos.  A população negra hoje consome um trilhão e setecentos bilhões de reais por ano no Brasil. A população negra responde por 51% das pessoas empreendedoras, a maioria mulheres, embora a gente esteja num país em grande crise. Mas a gente nao pode cair numa pauta exclusivamente econômica. O neoliberalismo não nos cabe. A gente também deve falar dos serviços públicos onde esta população preta é atendida. O genocídio da população preta não é apenas por meio da polícia. Começa no hospital público com a violência obstétrica sofrida pela mulher negra". 

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"Eu estive dentro do sistema para aprender a fazer o meu sistema. Hoje, eu produzo as minhas companheiras e companheiros, eu me produzo falando e estando aonde eu desejo estar". 

 

"A gente comprova o nosso capital humano e financeiro à medida que a gente acaba formando uma plateia e o teatro burguês começa a procurar pelos artistas. A gente não modifica o sistema. A gente estabeleceu um novo sistema e o velho sistema acaba nos procurando".

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"Eu não faço teatro pelo protagonismo. A minha missão é abrir espaço para outras pessoas negras. Existem coisas mais importantes do que ego, do que ficar preocupado com holofote em cima da cabeça. Tem preto morrendo lá fora". 

"Há muito tempo não me chamam pra fazer bandido ou pra fazer pessoa escravizada por eu ter esse discurso político de não me encaixar nestes papéis, de não aceitar estes papéis. O sistema, ao me convidar, vai ver que eu não vou corroborar com esta questão". 

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Fotos: Thiago Lara

Produção: Nanda Maccal e Felipe Martins

Edição de texto: Felipe Martins

Edição de arte/web: Lucas Ribeiro

 

O maravilhoso Rodrigo França é ator, dramaturgo, escritor, filósofo, cientista social e professor de Direitos Humanos. Roda o país com a peça Contos Negreiros do Brasil e estreia neste sábado como diretor a peça Inimigo Oculto