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"Com cinco anos de idade, eu já me isolava das outras crianças. Não me sentia igual a elas".

 

"Eu brincava sozinha. Tinha meus amigos imaginários".

 

"Quando criança, só me davam brinquedos de menino. Eu pintava os bonequinhos como se fossem maquiagens femininas. Eu me via naquelas vidas que eu criava".

 

"O medo me acompanhou por muitos anos. Tinha medo de me abrir. Medo de apanhar. Medo de ficar de castigo. Era horrível viver assim. Uma tortura que parecia não ter fim. Gente como eu tenta se encaixar de todas as formas".

 

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"Com sete anos, eu flagrei meu pai traindo a minha mãe e contei pra ela. Meu pai me deletou da vida dele depois disso. Passou a dar atenção apenas para os meus irmãos. Por um lado isso foi bom. Ele passou a não fazer falta. Passei a dizer desde muito cedo que sou órfã de pai vivo. Isso não me dói nenhum pouco."

"Minha mãe continuou com ele. Foram 30 anos de um relacionamento abusivo. Era mais um motivo para eu fugir para as brincadeiras com meus amigos imaginários. Para esquecer um pouco as brigas dentro de casa e fingir que nada estava acontecendo".

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"Quando eu me assumi gay, na época, minha mãe me bateu com um cabo de vassouras no meio da rua. Mas nem doeu. O cabo de vassoura era velho e quebrou na primeira paulada. Mas não foi pela minha sexualidade e sim por eu ter escondido dela. O bairro inteiro já sabia. Ela foi a última a saber".

 

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"No final da adolescência, com uns 17, 18 anos, eu comecei a frequentar bailes de favela. Pegava escondido as roupas da minha mãe e me montava nas casas das amigas. Tive um romance com um bandido que dava umas crises de ciúme que eu adorava. Até aquela idade, foi a coisa mais próxima de um relacionamento normal que eu tive.".

 

"Na época, eu achava que ele era gay porque eu também achava que eu era gay. Foi custoso até eu me descontruir, me entender como mulher, e entender que o cara que vive comigo é heterossexual."

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"Com o tempo, eu descobri que eu não preciso sentar à mesa igual a uma princesa, toda empinadinha, para poder ser mulher. Eu passei a perceber que não é deitar numa mesa de cirugia que vai me fazer mulher. Não é quase me matar por excesso de hormônio, como eu quase me matei. "

 

 

"Ser mulher é lutar cada dia pelo direito de existir"

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"Tive um namorado que foi um anjo na minha vida. Ele que me ajudou a me encontrar, a entender minha identidade de gênero. Ele foi à casa da minha mãe me pedir em namoro. Minha mãe, sem entender nada, perguntou para ele: Você veio na minha casa pedir meu filho em namoro? Ele respondeu assim: Não, eu vim na sua casa pedir a sua filha em namoro".

 

"De início, minha mãe achou que era ele quem estava querendo mudar a minha cabeça. Me querendo fazer virar mulher. Eu expliquei a ela que ele tinha pesquisado sobre o tema, me ajudado. É assim que eu sou."

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"Eu me afastei de familiares que tinham preconceito com meu namoro e meu namorado. Ele era chamado de macaco, criolo. Eu sempre tive resposta pronta pra tudo e aprendi rapidamente novas respostas. Quando alguém vinha com aquelas perguntas idiotas do tipo: 'Quem come quem?', eu respondia: Quem estiver com mais fome no momento."

 

"Ele me levou até à Uerj de mãos dadas. A doutora me recebeu super bem, me explicou todo o funcionamento do processo transexualizador. Saí de lá chorando, cheia de sonhos".

 

"Quando saímos do ambulatório, ele disse para mim: a partir de agora é com você, não viremos mais juntos aqui. Essa estrada agora é sua. Com o tempo, eu entendi que ele me ajudou a me preparar para a vida".

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O processo do SUS leva dois anos para te liberar o tratamento com hormônios. São dois anos atendida apenas por um psicólogo que vai te liberar a medicação. Eu passei a tomar por conta própria. Era hormônio no café da manhã, almoço e jantar".

 

"No início, uma técnica de enfermagem da favela que aplicava as injeções. Mas como ela não queria aumentar a dosagem, eu, que achava que tinha medo de injeção, passei a aplicar em mim mesma".

 

"Passei a comprar seis, dez ampolas. Aplicava duas ampolas por semana, quando o normal seria uma por mês”.

 

"Quase tive um nódulo na mama direita. Minha perna encheu de varizes. Parei com todo o hormônio.... mas depois voltei a usar." 

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"Quando eu peguei o documento de identidade  com meu nome foi uma das maiores emoções da minha vida. Vim andando pra casa com o sorriso de orelha à orelha”.

“Mas antes, eu passei por muitas situações ruins. Chegaram a perguntar durante o processo como eu era antes”. 

“Eu e minha mãe não temos uma lambeção entre a gente, não somos muito de ficar se abraçando. Mas quando eu cheguei com o documento nas mãos, ela me deu um abraço. Depois de eu estar com a minha identidade nas mãos, parece que, para ela, o falecido nunca existiu. Ela corrige as pessoas. Corrigiu o meu pai. Disse pra ele: 'Respeita a minha filha que ela é sua filha também".

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"Durante muito tempo o corpo foi um problema pra mim.  Praia, nem pensar. Não entrava em provadores das lojas".

 

"No começo eu só transava de luz apagada e em posições que eu não me sentisse exposta."

 

"Era uma mistura de medo, nervosismo e vergonha".

 

"O meu ex levou quase dez anos para que eu permitisse que ele fizesse sexo oral em mim. Eu não deixava ele me tocar".

 

 

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"Mas depois dos 30 eu comecei a aloprar. Fazer tudo que eu tinha vontade e nunca tive coragem"

 

"Minha mãe sabe tudo que eu faço, com quem eu faço, na hora que eu faço". Mãe é uma pessoa para quem você nunca deve mentir, claro que alguns detalhes eu dou uma diminuída".

 

"A primeira vez que eu transei com uma menina foi também a primeira vez que eu fumei um baseado. Fumei naquele papel que que o absorvente vem enrolado. Altas aventuras. Como boa sagitariana, ela sumiu. Foi para o Panamá."

 

"Me defino como bissexual."

 

"Não tenho problema nenhum de falar sobre nada"

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"Hoje eu estou mais para o poliamor. Já está provado por a mais b que monogamia tem prazo de validade".

 

"Depois que eu me entendi bissexual, eu percebi que as mulheres objetificam tanto quanto os homens".

 

"Tive um relacionamento com uma mulher que me tratou pelo sexo masculino. Brochei total".

 

"No meu perfil no Tinder eu faço questão de escrever em letras grandes: MULHER TRANS ATIVA E PASSIVA. BISSEXUAL. Se você não curte, não me dê like. " Se você me trata como um objeto, para o seu despesero vou lhe tratar três vezes pior".

 

"Vêm aqueles caras que dizem que vão fazer e acontecer. Eu entro no jogo, digo que vou ser a passiva dele. Mas passou pela porta do quarto, meu filho, bem-vinda a mosca à aranha: Estão todos de quatro, de frango assado. Eu ainda piso, digo para o cara: esperava outra coisa de você, você dá melhor que eu".

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"Eu desenho desde os cinco, seis anos de idade. Desde essa época já dava os meus rabiscos. Nunca fiz curso porque nunca tive condições. Sempre fui criada na dureza. Então fui evoluindo meus desenhos sozinha, sempre me inspirando nos desenhos animados que amo como X-MEN, Cavaleiros do Zodíaco. Criava personagens, sempre femininas, e me via nelas"

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Desde criança, o papel e o lápis eram meus amigos. Ali, o mundo não tinha limite, nem medo. Ali, ninguém podia me fazer mal.

"Eu fiquei muito tempo sem desenhar, voltei tem pouco tempo graças ao curso de tatuagem que fiz”.

 

"Meu nome de tatuadora é Imperatriz Furiosa, por causa da personagem Fury Road, do Mad Max.

 

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"Ninguém acredita que eu vá levar a arte da tatuagem à frente, mesmo quem me ajudou a comprar os primeiros materiais".

 

"Mas é dessa descrença que eu tiro forças para evoluir"

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"Tenho um sonho: abrir um salão de beleza, bar e estúdio para tatuagem mais direcionado às mulheres".

 

Fotos: Thiago Lara

Produção:Felipe Martins

Estúdio: Sala 901

Edição de texto: Felipe Martins

Edição de arte/web: Lucas Ribeiro

 

Liberdade de Ser com a desenhista, tatuadora, cabeleireira e manicure Lara Lincoln publicada em 06 de setembro de 2018. A série de ensaios é uma concepção do jornalista Felipe Martins, editor de Rio Gay Life.