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Rio Gay Life continua a série de ensaios que, por meio de fotos e palavras, busca encontrar a essência das pessoas que se desnudam para este projeto. O convidado desta semana é o cantor Kaique Theodoro, o primeiro homem trans a se apresentar em uma boate LGBT no Rio de Janeiro. 


 

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Minha relação sempre foi muito complicada com meu corpo, por motivos até óbvios. A gente vive numa sociedade cisheteronormativa, falocêntrica e, como homem trans, eu entro sempre na caixa do repúdio, por todos os lados. Eu aprendi a gostar do meu corpo por meio do olhar do outro.

 

Desde muito novo eu sempre fui o cara que repudia sexo casual por saber que é muito raro uma pessoa tocar o meu corpo sem ser a título de curiosidade. A gente acaba se privando de algumas coisas na vida.


 

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As pessoas me veem como um cara padrão: branco, de classe média. Mas o que eu tenho no meio das pernas me tira desse padrão de uma forma violenta. Quando você não tem uma referência, quando não conhece alguém que tem as mesmas características que a sua, é muito difícil. Você, a maior parte do tempo, não se enxerga no outro. 

 

O tempo todo as pessoas apontam. Primeiro, eu  tenho que entender que vou precisar construir o meu corpo. Segundo, tenho que aceitar que o resultado nunca vai chegar em algo que comporte o gosto das outras pessoas. Terceiro, tenho que criar o amor para o meu próprio corpo. Sou apenas eu.

 

Se você não tem o seu corpo aceito, querido, desejado, sem que seja apenas um objeto, é como se fosse melhor você deixar a  alma solta. Quem sabe numa próxima vida a sociedade esteja mais preparada para os corpos transmasculinos. É muito repúdio mesmo.

 

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Aos seis anos, eu lembro  com todos os detalhes de um banho que eu estava tomando e eu olhava para o meu corpo e eu ficava questionando. Por que eu sou assim ? Por que eu tenho que brincar com as meninas?

 

Eu não queria ser a figura que eu via no espelho: cabelo grande, o rosto rechonchudo de princesinha da vovó. Eu me irritava profundamente de não brincar de carrinho. De não poder nem pedir de presente.

 

Eu vivia muito no meu quarto sozinho, sem muitos amigos . Eu andava com os meninos que eram excluídos. Tinha um amigo deficiente físico que me procurou tem pouco tempo no Facebook, um amor de pessoa. A gente sofria bullying juntos. 

 

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As pessoas me chamavam de estranho. Jogaram compasso em mim. Na época, eu ainda me entendia como mulher lésbica e isso também foi motivo. Teve um episódio que foi a coisa mais nojenta. Eu cortei o cabelo, fiquei bem bonito. Eu fui pegar um lanche no intervalo. Veio um moleque e me deu um lambidão no rosto.

 

Aos onze, eu caí em depressão, sofri abuso sexual, estupro corretivo,  uma experiência que eu não quero lembrar. Tudo isso somado, fez eu começar a usar drogas. Eu andava com a galera anarcopunk e com essas pessoas você conseguia as paradas de graça. Eu comecei pelo pó. Era uma parada pra me destruir mesmo. A intenção era essa.  Aquele livro "Eu, Cristiane F. , Drogada, Prostituída", era meio que a minha vida. Só não era heroína e não era com boys.

 

Eu usava cocaína pra me matar. Ao mesmo tempo era a única forma que eu ficava animado pra fazer alguma coisa, sair de casa. Dos treze aos quinze a vida saiu total do eixo. Repeti de ano na escola. Só sei que eu não queria mais viver.

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Me tornei um adolescente violento. Fazia boxe, muay thay. Queria dar porrada em macho escroto. Os meninos só mexiam comigo em grupo. E eu comecei a ficar com uma menina da escola, meu primeiro relacionamento. Minha mãe descobriu uma cartinha que eu fiz pra ela. Aí foi um estresse total. Ela reuniu eu, ela, minha avó e meu tio pra fazer aquele discurso de "você sabe que vai sofrer com sua escolha", aquele papo. Na época, minha mãe era evangélica.

 

Ela me encaminhou a uma psicóloga da igreja que veio com um diagnóstico de que eu tinha tendências à esquizofrenia e ao autismo e que eu era uma aberração. Disse que eu tinha que tomar cuidados com as minhas escolhas, que não iriam dar em um bom lugar.


 

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A psicanalista queria que eu tomasse remédio tarja preta. Foi aí que minha mãe se tocou. Ela sabia que o filho dela não era maluco. Foi também o começo do desencanto dela com a igreja e a volta para a Umbanda. Graças à deusa.

 

Meu pai, quando soube do diagnóstico, começou a rir. Disse que também havia sido diagnosticado com transtorno bipolar. Aí ele me aconselhou a usar maconha. Minha vida ficou muito melhor. Se eu tivesse conhecido a maconha antes, acho que nunca teria usado pó.

 

Ao contrário da cocaína e do tabaco, que eram vícios, a maconha eu uso quando eu quero.  Passo dias sem usar. A maconha me fez relaxar e lidar de outra forma com meus problemas. 

 

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Eu comecei a despertar para a transexualidade vendo o seriado The L World que tinha um personagem trans.  Com 16 anos, eu conheci uma pessoa que, eu olhando, achava que era uma mulher lésbica, mas ele mandou uma conversa assim: "Você vai achar esquisito, mas eu sou homem". Eu fiquei muito curioso e quis me aproximar, mas ele sumiu. Ao mesmo tempo, eu estava em terapia com uma nova psicóloga que foi um amor na minha vida.

 

Eu ainda não sabia o que eu era, mas eu tinha certeza do que eu não queria ser. Já queria tirar os seios. Ela me falou do SUS, do Pedro Ernesto (hospital universitátio no Rio de Janeiro). O baterista reapareceu e falou que estava iniciando o tratamento no SUS e me deu o papo pra pesquisar sobre o assunto. Fui ver o filme Meninos Não Choram. Aí o bagulho foi louco. Eu quase morri de tanto chorar. Aí a ficha caiu de vez. Quando eu descobri que tem um hospital público que tem um projeto voltado a isso, porra, meu irmão, eu vi que eu existo. 

 

Aí eu conheci outros meninos trans. O problema era que a fila no Pedro Ernesto era muito grande. Era fila pra entrar na fila. Quando eu tentei, não dava nem pra ir ao urologista mais.  A mastectomia (retirada das mamas) eu acabei fazendo em hospital particular.

 

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Eu descrevo a sensação pós-mastectomia como libertadora. Primeiro, porque meus seios eram enormes, me davam problemas na coluna. Eu usava uma faixa apertada pra que os seios não ficassem visíveis. Era faixa e esparadrapo. Segundo, simbolizava muito, é uma parada além do binarismo homem-mulher. Eu passei a ter nojo do meu corpo por conta do abuso que eu sofri.

 

Mas a vida não virou um mar de rosas, pelo contrário. No final do Ensino Médio, me tacaram pedras na saída da escola. Esse sentimento de não-pertencimento é uma parada que me acompanha a vida toda.

 

Eu não sei o que não é estar sozinho. Eu só sei o que é estar sozinho. Eu não sei o que é ter um relacionamento que me faça bem. Faz seis anos que eu não me envolvo com ninguém afetivamente. Eu procuro focar na minha carreira. Faço tudo pela minha carreira para não sentir tanta falta.


 

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Eu olho para os meus amigos que são casados e fico me perguntando: será que eu vou ter direito a isso na minha vida? Será que eu vou ficar me privando o resto da vida? É sempre um inferno. Já aconteceu de eu ficar com uma menina na balada e ela meter a minha mão na minha calça. Ela fez um escândalo. Cuspiu na minha cara. É muito difícil lidar com a rejeição. Por isso eu sempre procuro iniciar uma conversa dizendo que sou trans. Eu tenho medo da rejeição e da objetificação. Não quero ser cobrado por uma masculinidade padrão cisnormativa. 

 

Eu faço trabalhos como modelo e vejo que as pessoas trans são cobradas a reproduzir esse padrão. As fotos de cueca ou sunga são sempre com o packer (pênis de silicone usado para dar volume ). Os produtores de moda querem desfilar pessoas trans, mas nós não podemos ser trans. Não faz sentido. 

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Eu comecei a tocar violão com 11 anos com a ajuda de um professor e desisti um tempo depois. Com 14, eu decidi voltar a aprender sozinho. Vendo vídeos no Youtube. Minha maior influência era o Nirvana. Quando eu vi o clipe de Smells Like Teen Spirit, eu fiquei doido. Pensei: é isso que eu quero fazer. Kurt Cobain era o cara, dava um foda-se para gênero, era amigo da RuPaul. Nirvana era minha banda preferida. Aí fui aprendendo. Eu dedico a minha vida à música.  Tudo que acontece na minha vida, eu penso: onde eu quero chegar. Aí eu esqueço dos problemas e sigo em frente.

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Quero conquistar um espaço de um corpo que ainda não é permitido no mainstream. Eu não tenho a pretensão egocêntrica de ser um representante de todas as pessoas trans. Não quero ser um representante de ninguém além de mim mesmo. Mas eu vejo que é bem essa coisa de fazer um chão para que outras pessoas possam pisar.

 

A arte é muito mais que uma profissão. Foi o que me manteve vivo. Era onde eu encontrava afeto. Era minha válvula de escape. 

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Não quero ser visto como macho. É ruim, violento. O que é ser homem ? Não sei. O que é ser homem trans? Me respondam vocês que têm o sistema padronizado desde a infância. Eu não tive isso. Eu tive que me criar. Ser homem é ter coragem?Ser mulher também. Ser homem é ser forte? Ser mulher também. Ser homem é engravidar tendo um útero? Ser homem é abusar ? Estuprar?  Eu procurava me explicar como homem. Hoje, eu sei que eu sou o Kaique. 

Fotos: Thiago Lara

Produção: Felipe Martins

Estúdio: A Sala 901

Edição de texto: Felipe Martins

Edição de arte/web: Lucas Ribeiro

 

Liberdade de Ser com o cantor e fotógrafo Kaique Theodoro,  publicada em  19 de setembro de 2018. A série de ensaios é uma concepção do jornalista Felipe Martins, editor de Rio Gay Life.