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"Cresci sem me ver representada em lugar nenhum".

 

"Aprendi a odiar minha aparência muito menina quando assistia à novela Carrossel.  Não tinha nenhuma menina negra de cabelos crespos e o único menino negro que havia era o que mais sofria com a aparência".

 

"Lembro da minha tia-avó que me criava passando pente quente no meu cabelo. Eu chorava. Minha tia dizia: Não chore. É pra tentar melhorar seu cabelo".

 

"Os problemas que vivi em relação a minha aparência sempre foram meus maiores traumas".

 

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"Eu comecei a trabalhar com 13 anos como babá. Parecia que ali estava traçado o meu destino, mas eu não me conformava."

 

"Umas das imagens mais tristes daquela época é a da minha mãe amamentando minha irmã de um ano e pouco de idade, abatida por tudo que nós passávamos".

 

"Dei meu jeito para concluir o Ensino Fundamental trabalhando em casa de família como doméstica e babá."

 

"Entrei para as estatísticas. Engravidei aos 18 anos. O pai não quis a criança. Me virei, concluí o Ensino Médio aos trancos e barrancos".

 

"Eu sempre fui muito inconformada com o destino que minha vida iria tomar. Minha avó foi doméstica. Minha mãe foi doméstica. Minhas tias e primas eram domésticas. Parecia que não tinha outro caminho pra mim".

"Eu morava em Minas Gerais. A escola fez um passeio para a praia de Guarapari. Quando eu entrei no ônibus, toda feliz porque iria conhecer o mar, um menino também negro, mas de pele mais clara, gritou: 'Por que ela vai à praia? Já é tão preta. O cabelo vai encolher'. Todos riram. Eu desci do ônibus e não fui ao passeio".

 

"Meu pai, como milhões de trabalhadores, tinha um subemprego sem carteira assinada. Quando ele ficou doente, com esquizofrenia, nós ficamos completamente desamparados porque ele não recebeu absolutamente nada do governo.  Minha mãe era dona de casa. Meu irmão mais velho tinha 16 anos e já trabalhava, mas o dinheiro só dava para pagar o aluguel. Foi um período muito difícil. Passei um dia inteiro sem comer e até hoje me dói lembrar isso".

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"Aos 14 anos, eu trabalhava da hora de acordar até a hora de dormir numa mansão no Recreio dos Bandeirantes. Aos 16, passei a trabalhar em outra casa. A patroa permitia que eu estudasse à noite, perto da casa dela. Saía da escola, retornava, terminava os afazeres domésticos, dormia e acordava às seis da manhã para começar mais um dia de trabalho".

 

"A patroa ficou espantada quando eu pedi um livro para ela. Acho que ela pensou: 'Ué, a neguinha tem interesse em livros".

 

"Meu primeiro livro foi Harry Potter. Era do menino que eu tomava conta".

 

"Eu não parei mais de ler. Tudo o que eu sei se deve à leitura".  

 

 

"Na adolescência, eu me sentia muito feia. Meu cabelo crespo, minha mãe dizia que nada dava jeito. Minha boca, meu nariz, a cor da minha pele. Eu odiava tudo em mim. Eu era preterida por meninos e meninas".

 

"Foram anos ouvindo que eu era feia, que tudo em mim era o oposto do que se considera belo".

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"Eu realmente acreditei. Para desconstruir isso leva tempo".

 

"Eu consegui um emprego no salão Beleza Natural. Eles tinham um produto que prometia deixar qualquer cabelo cacheado. Porém, meu cabelo nunca aceitou. Eu era motivo de deboche. Acabou com minha autoestima".

 

 

"Mas aquele mesmo lugar me mostrou que eu era capaz. Fui promovida duas vezes dentro da empresa e resolvi me especializar na área. Fiquei lá por quatro anos. Saí e montei meu próprio salão".

 

"Empreender foi também uma fuga, já que eu tinha perdido muito tempo. Ensino superior não passava pela minha cabeça, não por preguiça ou falta de interesse, mas sempre me foi passado que era algo para brancos e ricos. Nem na escola falavam sobre."

"Nunca pensei em ser mãe. Não era algo que eu sonhava até porque eu era muito nova quando engravidei".

 

"Minha primeira gravidez foi um momento de muita dor e dúvidas. Pensei em aborto, não me orgulho disso, mas eu era uma menina de 18 anos, sozinha, que agora teria que cuidar de alguém".

 

"O que eu mais sentia era medo".

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"Quando ela nasceu, ai meu Deus, meu coração transbordou de amor. Aquele amor me capacitaria para tudo. 

 

"Me senti capaz. Capacidade foi o que ganhei ao me tornar mãe da Bia. Eu descobri que era capaz de tudo por ela".

 

"Depois de dez anos, eu resolvi ter mais um bebê. Agora em uma realidade diferente. Quando eu e meu marido nos conhecemos, a Bia tinha nove meses. Quando fomos morar juntos, ela tinha dois anos. Eles se adotaram.  Quando ela tinha cinco anos, a adoção foi oficializada".

 

 

"Meu filho veio para me ensinar a demonstrar o amor. Sempre amei muito, mas sempre tive muita dificuldade em demonstrar. Junior é o amor em pessoa. Ele diz que me ama pelo menos três vezes por dia e eu, com isso, aprendi a dizer também".

 

"Meus filhos são realmente o que eu tenho de melhor".

 

 

 

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Depois dos 25, eu comecei a engordar. As pessoas são muito cruéis. Às vezes não davam nem um bom dia e já mandavam um : Nossa como você engordou. Aquilo era um tapa na cara".

 

"Me lembro de uma prima me encontrar na rua com meu bebê, que era lindo. Ela nem olhou pra ele. Só olhou para mim e disse: nossa essa criança acabou com você. Nesse dia eu chorei muito".

 

"Cheguei a tomar remédios tarja preta pra emagrecer. Tomava encondido e ficava super feliz quando diziam: nossa como você emagreceu. As pessoas só viam esse emagrecimento. O que ninguém sabia era às custas de que". 

 

"Eu não fazia sexo de luz acesa. Eu não me permitia usar lingerie. Tudo eu achava que estava ruim. Tudo eu achava que não era pra mim e, na verdade, não é mesmo. Eu visto 44, 46 e tenho dificuldades em achar lingeries sexies pra mim"

 

"Foi um processo doloroso aceitar que eu não seria magra como as moças da revista e da televisão. Na verdade, ainda estou nesse processo".

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"Com meu filho bebê, eu já não conseguia tocar o salão com a mesma dedicação. Veio a crise e meu marido me fez um convite. Ele precisava de ajuda na empresa dele. Daria para conciliar melhor com a minha rotina. Para mim, era muito importante estar presente nos primeiros anos do meu filho".

 

"Comecei a trabalhar na empresa e acabei virando sócia. A empresa mantém nossa família com um conforto razoável. Ainda não é como eu gostaria, mas tenho fé que chegaremos em nossos objetivos".

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"Desde menina eu sempre vi meninas e meninos com os mesmos olhos".

 

"Mas não me entendia e até reprimia isso em mim. Achava que estava errado. O tempo passou. Eu me relacionei apenas com homens. Me casei e pronto: achei que estava tudo certinho. Bem padrãozinho".

 

"Me entender bissexual é bem novo pra mim. Eu tenho atração tanto por homens quanto por mulheres e essa aceitação de tudo em mim foi mais uma coisa que eu simplesmente aceitei".

 

 

"Foi um processo até bem tranquilo. Aconteceu justamente com o processo de reconhecer que não somos monogâmicos".

 

 

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"Nunca me relacionei afetivamente com mulheres, mas adoraria".

 

"Mulheres são muito foda em todos os sentidos. Eu venero as mulheres, principalmente as negras".

 

"Estou com meu marido há 15 anos. Com muito amor, respeito e cuidado um com o outro. Te garanto que tudo isso não se dá graças à instituição casamento".

 

"É muito importante para mim que meu companheiro é negro. Eu comecei meu processo de desconstrução bem antes dele. Hoje eu vejo ele se desconstruindo a cada dia e me sinto muito feliz em ver esse processo. Isso nunca aconteceria com alguém brancx".

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"Minha relação com meu cabelo é de um amor tão grande que eu costumo dizer que só quem tem sabe"

 

"Nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar que eu amaria tanto meu cabelo. Algumas pessoas me questionam ou até duvidam por eu usar extensões e apliques",

 

"Isso não me abala nem um pouco. Eu uso sim porque gosto de mudar minha aparência e porque pra mim é libertador poder fazer com meu cabelo exatamente o que eu quero"

 

"Parece até superficial eu falar tanto de cabelo, mas foi toda uma vida de traumas".

 

 

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"Hoje eu tenho os 20 quilos que ganhei na gestação há cinco anos atrás. E sim, eu me sinto muito bonita com eles. É claro que existem dias que não. Tem dias que olho e acho que tá tudo errado. Mas é passageiro, logo passa".

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"Negritude pra mim é olhar o outro negro com empatia porque, na minha cabeça, eu penso: essa pessoa, em algum momento da vida, passou por algum tipo de racismo como eu passei. Muitas das vezes nem essa pessoa sabe. Já cansei de ouvir negros dizendo que nunca sofreram racismo unicamente porque nem conseguiu perceber o preconceito".

 

"Negritude é ver beleza nas nossas origens como um todo. É acolher e sentir-se acolhido por uma irmã ou irmão negro".

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"É também lutar todos os dias uma guerra que me foi deixada como herança pelas atrocidades  feitas aos meus antepassados, mas é também  ter um sorrisão largo no rosto e alguma alegria mesmo com tantas dificuldades".

 

"Nosso povo tem uma alegria contagiante".

 

"Eu culpava minha cor por tudo o que acontecia comigo.  Meu sonho era ser branca. Hoje eu sei que a culpa não é, nunca foi e nunca será pela cor da minha pele e sim de uma estrutura que foi criada ao longo dos anos em volta do meu povo".

 

 

"Eu tenho muito orgulho de ter nascido negra".

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"Ser mulher, pra mim, hoje, é bem diferente do que me foi passado a vida toda".

 

"Eu sempre ouvi que deveria me comportar, arrumar um marido, ter filhos, cuidar de todos eles, da casa e ponto". 

 

"Hoje eu sei que eu posso muito mais. É preciso uma força e uma garra que eu nem sabia que possuía".

 

"Ser mãe, esposa, dona de casa e empresária não é fácil. Há dias bem difíceis. Mas desistir nunca foi uma opção para mim".

 

"Enfim, ser mulher é simplesmente divino, essa seria a melhor palavra para descrever.

 

"Mulheres são deusas e isso é um fato incontestável. Eu amo as mulheres, em especial as negras. Portanto, me amo."

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"Um grande sonho que pretendo realizar: me formar em psicologia"

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Fotos: Thiago Lara

Produção:Felipe Martins

Estúdio: Sala 901

Edição de texto: Felipe Martins

Edição de arte/web: Lucas Ribeiro

 

Liberdade de Ser com a empresária do ramo de manutenção e instalação de gás, Dani Fernandes,  publicada em  12 de setembro de 2018. A série de ensaios é uma concepção do jornalista Felipe Martins, editor de Rio Gay Life.