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Rio Gay Life continua a série de ensaios que, por meio de fotos e palavras, busca encontrar a essência das pessoas que se desnudam para este projeto. O convidado desta semana é o técnico de instalação de gás (ou gasista), Alex Fernandes.  


 

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"Tivemos uma infância humilde em São João de Meriti. Tenho dois irmãos e uma irmã. Nada sobrava, era sempre dividido. Nunca passamos fome, mas às vezes o negócio apertava. Tínhamos que comer um bolinho feito de farinha, água e açucar. Perdi meu pai quando eu tinha dez anos. Minha mãe não trabalhava ainda. Contamos com a ajuda de um tio que levava pão de onde ele trabalhava para nós. Achar um pão com fatia de presunto ou queijo era como ganhar na loteria.

 

Mas crescemos livres. Aquele clima de interior, onde todo mundo conhece todo mundo. Lembro dos banhos de chuva nos campos, das brincadeiras, de brincar na água da enchente. De ir até o lixão pegar pneus de carro para brincarmos.

 

Quando se é criança, não se tem a percepção exata do que está acontecendo. Tudo é festa.

Minha mãe passou a trabalhar em dois empregos. Só vinha em casa aos domingos. Trazia biscoito recheado e refrigerante. Era um momento muito aguardado. Ficávamos com minha irmã, que era criança também. Ela teve que amadurecer precocemente para cuidar de três irmãos mais novos, sendo ela uma criança.

 

 

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Tínhamos uma fita VHS que mostrava as atrações nos parques da Disney. Meus irmãos e eu víamos aquilo exaustivamente e ficávamos nos imaginando lá. Para a gente, era um mundo inalcançável. Alguns sonhos viram vontade. Às vezes, nem isso.

 

Depois de adulto, entendi como algumas coisas passadas nos desenhos da Disney moldaram a sociedade para algo pior, principalmente para as mulheres. Esse conceito de princesa ajudou e ajuda a cristalizar e reforçar o machismo. Para as mulheres, não se ver como princesa é ainda pior, extremamente agressivo. 

 

Acabei pegando aversão a muita coisa da cultura norte-americana e a forma como é martelada exaustivamente. E além do mais, não  gosto de parque de diversão, talvez pelo medo de altura e a maioria dos brinquedos envolvem isso. 

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Cresci na Baixada Fluminense, onde a maioria das pessoas são negras. Eu era a regra, não a exceção. Lembro de quando era moleque, os poucos brancos e alguns negros chamavam a gente de neguinho ou buiú. Tive professores negros, não a maioria deles. A minha primeira professora, Dona Maria José, era negra.

 

Todos os nossos ídolos eram brancos. Os temas das festas infantis era com brancos. Eu e meu irmão sempre raspamos a cabeça por conta do "cabelo ruim". O barbeiro usava uma máquina cega que parecia mais uma máquina de tortura. Puxava o cabelo de tal forma que caía lágrimas dos olhos. 

 

Mas para mim e para minha mãe aquilo era o normal. Não tinha outro jeito. Não me lembro de ninguém com cabelo crespo bem cultivado, todos os meninos raspavam.  Na adolescência, continuei raspando por comodidade. Hoje em dia, raspo por conta da calvície. E de cabeça raspada é como eu fico melhor, o que é uma pena, gostaria de cultivar um black.

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Trabalhei em casa desde cedo. Capinando o quintal, limpando caixa d'água, cuidando do bebê da minha irmã. Aos 13 anos, eu estava tomando conta do meu sobrinho pra ela poder estudar. Fazia tudo: mamadeira, trocava fralda, dava banho, colocava pra dormir. Eu lembro de algumas vezes chorar de nervoso, junto com ele, sem saber o que fazer. 

 

Na adolescência, com 16, 17 anos, comecei a conciliar trabalho formal e escola. Essa rotina durou até eu terminar o curso técnico de segurança do trabalho. Pulei muito o muro da estação de trem em Nova Iguaçu para economizar passagem.


Teve um tempo que eu fazia curso preparatório pra concurso em Madureira. Eu tinha uns 24 anos. Lembro dos camelôs cheirando cocaína.

Aquilo me deixou surpreso, mas não aterrorizado. Depois eu entendi: o cara passa o dia todo vendendo, já era tarde da noite, tem que se manter acordado. Esse sistema capitalista e classista selvagem obriga os trabalhadores a fazer esse tipo de coisa.

 

Um dia, saindo para o curso, lembro do meu sobrinho falando: "Tchau, tio. Se Cuida". Foi muito lindo. Fico emocionado só de lembrar disso".

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Eu nunca fui popular. Era tímido, nunca tive muitos amigos. E era gordinho também. por isso, fazia parte da galera deixada de lado, então sempre simpatizei com quem não estava no poder. E quem briga por essa galera é a esquerda. É a esquerda que tem os candidatos que mais se aproximam do povo. Ainda falta fazer muito no que diz respeito à política de reparação para o povo preto, mas temos muitas conquistas, por isso a importância de votar em nossos iguais. 

 

Outro dia um colega, irritado com um vizinho fazendo barulho com uma furadeira as 8h30, disse que isso era coisa de favelado. Lembrei a ele que eu sou favelado e que ele estava fazendo uma associação discriminatória.

 

Usar o vocabulário correto para se referir ou classificar as coisas é importante para acabar com os estigmas. Assim como o povo preto, nordestinos têm seus corpos marcados por uma série de conceitos preconceituosos.

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Uma vez, enquanto eu fazia uma instalação de uma tubulação de gás em Laranjeiras, a cliente, pra me pedir um favor, chegou se referindo a mim como "neguinho", tipo: "neguinho, você pode trocar essa lâmpada pra mim?" Cara, na hora eu parei, e falei: Senhora, ou me chama de técnico ou de Alex, neguinho não. Ela ficou indignada. Disse que tem "amigos" da minha cor e que os trata assim. Falou a mulher branca, moradora da zona sul.

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Nosso desejo sexual passa por toda uma construção estética, que a sociedade impõe, desde sempre a beleza da branquitude é massificada. A princesa é sempre loira, o príncipe é sempre loiro de olhos claros. Acaba que o que você acha que é "preferência" é só uma configuração que lhe foi passada desde pequeno.

 

Se a pessoa tiver noção disso tudo, e ainda sim ter uma relação interracial, acho válido, até porque existem pessoas brancas e não negras concientes sobre nosso universo ou dispostas a entender. Eu nunca namorei gente branca, porém já me relacionei e ouvi umas coisas que se fosse uma pessoa negra, tenho certeza que não teria dito. Quando a pessoa não sofre na pele, ela não entende empiricamente. Acho fantástico relacionamento afrocentrado, porém não acho que tenha que ser regra, desde de que seja nos moldes que falei anteriormente.

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"Zumbi: o despertar da liberdade", do Júlio Emílio Braz, foi o livro responsável por ajudar a construir minha consciência enquanto negro e me introduzir no mundo literário. Li só dois livros do Machado de Assis,mas para mim, tem uma das melhores escritas, pra mim é o escritor brasileiro mais importante.  Me emocionei com cada conto de "Olhos D'água", da Conceição Evaristo. "Vidas Secas", do Graciliano Ramos, é espetacular.

 

No cinema, sempre gostei muito do Woody Allen, gosto da linguagem dele, os diálogos são sempre interessantes e os roteiros muito bom. VI quase toda filmografia dele. Os mais recentes que não, pois percebi o quanto racista e classista ele é. Do Almodóvar, gosto da fotografia, das cores, os filmes dele têm uma plástica bem temperada, mas atualmente quem tem feito minha cabeça é um grego, Yorgos Lanthimos, "o lagosta", "Dente canino" e "O sacrifício do cervo sagrado" são impressionantes.

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Comecei a perceber que determinados tratamentos eram dados somente aos negros e pessoas brancas não se tratavam da mesma forma. Um rapaz branco  que trabalhou comigo chamava a maioria das pessoas de neguinho. Eu comecei a chamá-lo de branco, ele não gostou, perguntou para mim porque eu estava chamando ele assim. Eu disse que estava fazendo a mesma coisa que ele, tratando conforme a cor da pele dele. Teve um livro que li, não lembro o título, mas era sobre um moleque de rua, que pegava um livro emprestado com um vendedor negro da livraria. Na historia, ele ficou surpreso pelo cara ser negro. Comecei a notar que negros realmente não ocupavam esses lugares,  a representatividade tratada no livro despertou em mim uma visão mais crítica sobre o povo preto. Casos de racismo começaram a chamar minha atenção, não ver pessoas iguais a mim na televisão também, capas de revista. Eu achava que não sofria racismo, até ter noção da estrutura racista q está enraizada.

Lembro do meu irmão perguntar a um vendedor da Redley por que não tinham negros trabalhando na loja. Ele respondeu que tinha no estoque, em tom de "brincadeira". Através dessas brincadeiras, fui percebendo, como veem o lugar do negro na sociedade.

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Depois que fui morar só, não sabia quase nada na cozinha, aí você vai misturando uma coisa aqui, outra ali, vai dando certo, você vai gostando, as pessoas vão elogiando, você vai acreditando, me peguei gostando dessa alquimia toda. Aí bati o martelo. Vou fazer gastronomia.

 

Quero focar nessa questão de aproveitar 100% do alimento, é importante não jogarmos o que pode estar sobre a mesa no lixo por uma questão de cultura ou falta de conhecimento.

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Eu comecei a me interessar pelo universo das caveiras depois de adulto. Gosto da estética. Eu tenho desde imã de geladeira, até uma caneca em formato de crânio, passando por anel e minha luva de forno. O significado é bonito: transformação, renovação, conhecimento.

 

Quero cursar a faculdade de gastronomia, trabalhar por conta própria, e fazer algo pela população de rua. É muito agressivo ver pessoas sem teto, comendo alimento do lixo pra não passar fome. Essa situação me deixa muito triste, ainda mais porque a maioria dessas pessoas são negras. É isso, trabalhar com gastronomia, ganhar o suficiente pra ter uma vida confortável, sem extravagância, e ajudar a galera que precisa.

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As pessoas, antes de me conhecer melhor, pensam que eu sou uma pessoa brava e séria. Acho que por causa da barba e da testa que fica franzida involuntariamente. Mas que nada, sou mega de boa.

 

Fotos: Thiago Lara

Produção: Felipe Martins

Estúdio: A Sala 901

Edição de texto: Felipe Martins

Edição de arte/web: Lucas Ribeiro

 

Liberdade de Ser com o gasista Alex Fernandes, morador da favela Beira-Rio, em Nova Iguaçu, publicada em 26 de setembro de 2018. A série de ensaios é uma concepção do jornalista Felipe Martins, editor de Rio Gay Life.