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Rio Gay Life continua, nesta terça-feira, a série de ensaios Liberdade de Ser. Em fotos e aspas, as histórias que o corpo conta, expressa, sente, deseja. Aiye Ti Eso é estudante de Ciências Sociais na Uerj. Passou por dez cirurgias, a primeira aos dois anos de idade em razão de lesão no tendão de aquiles. Aos 13, uma fratura no fêmur e o deslocamento da bacia levou Aiye a uma sequência de dez cirurgias desde a adolescência até os 33 anos de idade. 

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"Dos 13 aos 20 anos eu não andava. Passei toda a minha adolescência dentro de casa.  No momento que eu voltei para a escola foi muito difícil. Os amigos sumiram . Isso se refletiu na minha vida afetiva e na vida sexual como uma negação de tudo".

"Falar da minha vida é falar de um não-lugar. De um não-pertencimento. O tempo todo."

"Foi um processo longo e complicado para eu aceitar o meu corpo e aceitar que as marcas que eu trago têm uma beleza".

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"Eu encontrei na escrita a forma de eu externar o meu sofrimento".

 

"A escrita é o meu curativo, meu suporte. Escrever para mim é estar em um lugar de cura".

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"Toda a minha sexualidade foi internalizada durante a adolescência. Eu reprimia todo o desejo que eu sentia. Eu evitava olhar as pessoas para não sentir desejo".

 

"Me tornei uma pessoa reativa, agressiva, porque eu não estava dando conta de minhas demandas psicológicas".

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"Me vejo muito na história do filme Moonlight. Às vezes, vejo algumas pessoas falando de solidão e de auto-aceitação de uma forma que me parece superficial. As pessoas dizem que a gente precisa se amar para ser aceito pelos outros, mas esse se amar também é construído, não é algo determinado internamente, fora das relações sociais. E a sociedade produz esses não-lugares, produz o binarismo, produz o com deficiência, o sem deficiência. E a gente está o tempo todo ressignificando isso. Não é fácil".

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"Meu primeiro beijo foi aos 29 anos". 

 

"O meu primeiro sentimento depois da minha primeira relação sexual foi de gratidão".

 

"O que você faz com um buraco de experiências que você não teve a vida inteira, já com 30 anos de idade?"

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"Eu estou sempre numa relação desigual com o outro. Sempre vulnerável. É difícil manter uma auto-estima quando você tem esse tipo de histórico". 

 

"Cada tentativa de sair da minha zona de conforto e de procurar viver tem sido assustadora e me gerado um milhão de conflitos. Lidar com o preterimento é uma parada que doeu e ainda dói muito". 

"A universidade foi o espaço onde eu comecei a me encontrar. O lugar onde eu comecei a conseguir me expressar, mostrar quem eu realmente sou. Foi onde eu conheci o coletivo de bichas pretas e consegui conviver com pessoas mais próximas da minha realidade. Por outro lado, a instituição, mesmo com o sistema de cotas, continua embranquecedora. Eu só tive um professor negro na faculdade de Ciências Sociais. Eu tenho uma tatuagem do pensador de Rodin por somente ser oferecido acesso à cultura e história europeias".

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"Eu tive uma professora na universidade que falava o tempo todo sobre a França e de como os franceses são. Uma fala que não fazia o menor sentido para os alunos que vinham do sistema de cotas. Ela uma vez criticou os alunos  por escreverem mal, disse que terminaríamos todos professores do Ensino Médio. Meu sonho, antes de entrar na universidade, era ser professor do Ensino Médio.

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"Em um debate com pessoas negras uma pessoa levantou a voz e falou: 'viado tudo bem, mas afeminado não é africano. Isso é afeminização do homem negro'. Se isso não é uma violência, eu não entendo mais nada".

 

"Esse discurso de raça primeiro acaba ocultando as intersecções que as pessoas vivem. Eu sou preto e sou bicha. Essa história de raça primeiro acaba repetindo discursos de movimentos sociais que dizem: classe primeiro".

 

"É sabido que o movimento LGBT não reconhece as bichas pretas, objetifica, mas é importante dizer também que algumas camadas do movimento negro não lidam bem com sexualidades não-normativas".

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"Eu não abro mão da minha vivência de preto e bicha em diáspora".

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"Eu aprendi que um corpo estranho é uma possibilidade de aprendizado não apenas para mim, mas para todo mundo. É uma possibilidade de ir para outros lugares, criar lugares".

 

"Eu entendi que meu corpo é milhares de possibilidades".

 

"Me descobrir uma pessoa que pode desejar e que pode ser desejada e que, afinal de contas, é gente igual a todo mundo é o sentido da vida.

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"Fazer uma parada sem roupa é desafiador. É eu estar no meu lugar de medo e desconforto, mas sim, eu vou fazer. As minhas cicatrizes contam uma história. E uma história que não é só minha, é de todo mundo. De pessoas que não lidam bem com o corpo.

 

"Eu sou filho de Obaluayê, o orixá da saúde e da doença. A história dele é cercada de mistérios e de superação. É muito bonito. Eu sonhava com ele desde criança, mas só fui entender o significado de tudo isso há dois anos, depois que me aproximei do candomblé".

 

"A gente tem que ficar nu. A gente está muito armado, muito na defensiva. A gente tem que se permitir, permitir o estranhamento.

 

"Meu corpo não é desprovido de sentido".

 

A poesia de Aiye Ti Eso

Pediram que trouxesse um objeto meu,
Algo que me representasse:
Trouxe o corpo nu

Sua voz é potência 
E mesmo o tempo 
Desenha as suas marcas por aqui

Deixa então, 
O corpo contar:
Fundo até os ossos

Deixa as cicatrizes falarem por si
De nós,
Dos nós

São poesias costuradas na pele
Há beleza nelas.

 

 

 

Fotos: Thiago Lara

Produção: Nanda Maccal e Felipe Martins

Edição de texto: Felipe Martins

Edição de arte/web: Lucas Ribeiro

 

Liberdade de Ser com Aiye Ti Eso publicada em 7 de agosto de 2018, dia que o escritor e estudante de Ciências Sociais comemora, vitoriosamente, 36 anos de idade.